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Carlos
Melo de Andrade
Ipatinga
/ MG
Fantasias de uma vida
Isto não podia estar acontecendo com ele...
Era realmente algo inimaginável...
Sentado em sua sala, de frente para a sua varanda, viu ao seu lado
uma luz que surgindo do nada iluminou o seu ser e, apoderando-se de
todo o seu espírito e de sua forma humana, sem palavras, gestos
ou qualquer forma de expressão já conhecida, direciona
seu olhar para um grande vazio, que se abre bem à sua frente.
Com a nitidez maior que uma grande tela de cinema, se vê fazendo
uma viagem a um mundo nunca antes imaginado.
Como que sugado para dentro de um enorme vácuo, depara-se de
repente em uma aldeia em plena floresta amazônica.
Todo o linguajar era desconhecido e, sentindo-se um viajante, vivenciando
as suas vidas passadas, se reconhece no meio de toda uma multidão.
Num piscar de olhos passa a ver a si mesmo, vivendo uma vida que nunca
imaginou ter vivido.
Como pajé de uma grande tribo, fazendo-se entender na sua língua
nativa, prepara uma enormidade de ervas, que como poucos naquela região,
conhece como ninguém.
Ao seu redor, o chefe da tribo e diversos anciões, esperam
uma grande mágica, que será a solução
para todos os problemas que vem enfrentando há muito tempo.
Suas vestimentas, feitas do couro de um grande animal selvagem, davam-lhe
o ar de um grande feiticeiro, de um grande mago, irresistivelmente
invencível.
De posse de um grande cachimbo confeccionado minuciosamente em bambu,
consegue sentir, sem ao menos respirar o ar que rodeia a sua estranha
vida indígena, que do alto observava, o cheiro de um fumo,
que mais parecia a mistura de diversas folhas alucinógenas.
As pessoas que o rodeavam, se viam envoltas em espasmos de fumaça
e, em meio as suas diversas cantorias, sentiam-se verdadeiramente
enfeitiçadas.
Com sua vassoura de galhos de pequenas árvores e arbustos,
fez a fumaça enveredar em toda a oca, como que penetrando em
todos os espaços permitidos, fazendo-se tornar parte importante
de uma cerimônia, que aparentava estar no seu maior auge.
Ao longe consegue observar, mesmo no meio de tanta fumaça,
um índio que minuciosamente direciona sua lança em direção
ao seu peito e, num piscar de olhos, sente um vento sorrateiro vindo
em sua própria direção, como que arremessado
pela força descomunal de um gigante enfurecido.
Tenta gritar, para que ele mesmo possa ouvir, mas percebe que já
é muito tarde.
Com a lança cravada entre suas costelas, tenta pronunciar um
grito desesperado de dor.
Na iminência do raiar de um novo dia, com a aparição
dos primeiros rastros de sol, se vê dentro de um cemitério
e, rodeado por diversas pessoas fortemente armadas com foices, machados,
enxadas, picaretas e enormes tochas ofuscantes, que os direcionam
a um lugar em comum, ele.
A enorme capa preta que o envolve, é agora a sua nova roupagem,
que além de protegê-lo do gélido frio da cidade
interiorana do Estado de Minas Gerais, serve também para ilustrar
o ar fantasmagórico de sua nova vida no corpo de um vampiro.
Sente-se enganosamente protegido dentro de um espaçoso caixão
e, antes mesmo que pudesse fechar os olhos, para ter o descanso merecido
depois de uma noite alucinante, de poder experimentar o sabor adocicado
do sangue de algumas donzelas, sente-se sendo espreitado.
Em um movimento rápido, vê a tampa ser removida e, com
um incontido grito, sente cravado no âmago de seu coração
uma estaca de madeira.
A força utilizada foi tanta que do alto consegue perceber o
olhar de raiva e ódio, desprendidos no movimento mortal.
Não teve tempo de se ajudar, pois a rapidez do acontecimento
foi muito maior que a sua própria surpresa.
O sereno da madrugada aos poucos invade toda a cidade do interior
do Estado de São Paulo e, com fortes dores em todos os seus
membros, se vê transpor da condição de simples
humano, para a enraivecida figura de um novo ser.
Em segundos percebe-se transformar em um lobisomem, que com grandes
uivos saúda a noite de lua cheia que se aproxima.
Sem ter o dom do raciocínio, percebe como meio humano e meio
animal, que as antigas vestimentas do pajé, já não
eram apenas mais um agasalho, mas sim toda a sua pele.
Pelos grandes olhos negros, consegue vislumbrar que nesta nova vida
em que está, o sentimento que o comanda é o da destruição.
Com espanto se vê olhando para trás e, num forte estampido,
seguido de diversos outros, vê o seu corpo cravejado de balas.
Nenhuma reação por mais rápida que tivesse existido,
teria sido possível para livrá-lo de mais de uma de
suas mortes.
Antes que começasse a transcender a fina ligação
entre vida e morte, tenta distinguir os olhares que o circundam.
Esforço inútil...
Nada foi reconhecível...
Nada foi igualável...
Sente-se vagando pelo espaço, tentando desesperadamente firmar
os seus pés em um lugar calmo e tranqüilo.
Mas em sua condição atual percebe que a forma mais próxima
que conhece é a do nada ser, do nada ter e do nada estar.
Vaga simplesmente como um fantasma, tentando resgatar quem sabe, o
que nunca tinha tido ou sido.
Do sonho acorda...
Do filme de sua vida, relembra todas as passagens...
E hoje pensa...
Pode ter sido um falso curandeiro, um matador sanguinário e
até mesmo um criminoso animalesco...
Um de cada vez...
Todos ao mesmo tempo...
Ou não!...
Quem sabe?...
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